Entrevista com Lucilia Soares Brandão, tradutora de “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis

Leia a seguir entrevista com Lucilia Soares Brandão, que traduziu para o português, pela primeira vez, diretamente do grego moderno, o livro “Relatório ao Greco”, de Níkos Kazantzákis. “Relatório ao Greco” será lançado no dia 6 de outubro pela Cassará.

Como nasceu seu interesse por Kazantzákis?

L.S. B. Eu não diria “interesse”, mas sim, amor. Realmente, o que mantenho com a obra desse grande poeta é uma verdadeira relação de amor. Tudo começou com a leitura de “O Cristo Recrucificado” traduzido para o francês que, em uma de suas viagens, meu pai achou em uma livraria de Paris. Foi esse “espanto” – e leia isso ao modo grego de θαυμασμός – esse verdadeiro maravilhamento com a leitura do romance que me fez aprender o grego porque, se, na tradução, já era bom, imagine no original… E nunca me arrependi.

Você poderia nos contar como foi o seu percurso de formação em língua grega?

L.S.B. Não foi dos mais fáceis, simplesmente porque aqui não existia, assim como não existe, nenhum curso que ensine o grego moderno. O grego antigo, você pode estudar em algumas universidades, mas, o moderno, não.

Assim, fui uma autodidata, aprendi sozinha usando o método francês Assimil. Depois que eu já possuía alguma proficiência, fiz cursos de grego em Atenas, inicialmente, no Athens Center, um excelente curso, diga-se de passagem, e, posteriormente, na universidade da Tessalônica e na universidade de Atenas.

No que diz respeito a “Relatório ao Greco”, como foi sua experiência de tradução? Houve desafios? Quais foram?

L.S. B. Se houve desafios? Só houve desafios. Apesar de escrever no grego moderno – o que facilita a tradução – a linguagem de Kazantzákis é bastante complicada porque, além do dialeto cretense, ele utiliza palavras do grego antigo, de grego bizantino e ainda cria palavras. Um dos problemas para a tradução é o fato de não existir nenhum dicionário, nem razoável, de grego para português. A tradução envolveu muita pesquisa em sites gregos e, principalmente, cretenses, além da ajuda de um amigo cretense que mora na Tessalônica, isto é, mais uma vez, através da internet.

Você desenvolveu na UFRJ uma esse de doutorado sobre Kazantzákis, que será proximamente publicada pela Cassará Editora, poderia nos falar, em linhas gerais, sobre os principais aspectos dessa sua pesquisa?

L.S.B. Não foi só a tese de doutorado, foram também a dissertação de mestrado e, agora, a pesquisa de pós-doutorado. Toda minha vida acadêmica foi dedicada ao estudo de sua obra.

Mas, especificamente em relação à tese de doutorado, o enfoque principal foi demonstrar que, ao contrário do que dizem, a epopéia não termina com Camões, Kazantzákis também escreveu uma epopeia à qual deu o nome de Odisseia. A estratégia usada foi um estudo comparativo entre a Odisseia homérica, a do Akritas, produzida durante o período bizantino, e a kazantzakiana, escrita na época moderna.

Infelizmente, o grego moderno é ainda pouco difundido no Brasil. Concretamente, o que seria importante fazer para difundi-lo? Para aqueles que têm desejo de aprender grego moderno, qual conselho lhes daria?

L.S.B.Concretamente, seria necessário que, em primeiro lugar, houvesse um interesse real das próprias autoridades gregas no Brasil na difusão de sua língua e de sua cultura. Explicando melhor, seria necessário que os consulados, ou mesmo a embaixada, entrasse em contato com as universidades sugerindo um curso de grego moderno como eletivo. Isso já seria um ótimo começo.

Quanto àqueles que desejam aprender o grego moderno, eu aconselharia a começarem seus estudos aqui no Brasil, com um professor brasileiro, pois, ele conhece bem onde estão as nossas dificuldades no aprendizado da língua e poderá ajudá-los. Depois disso, infelizmente, só estudando na Grécia.

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A vida, a morte e as paixões no mundo antigo: novas perspectivas

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A vida, a morte e as paixões no mundo antigo: novas perspectivas nos brinda com uma série de estimulantes ensaios que mostram que a Antiguidade não é uma época longínqua, cristalizada no passado, reduto de uma história já acabada. Muito ao contrário, é pulsante repositório de infindáveis questões que se ligam diretamente ao nosso entendimento sobre nossa própria humanidade.

Está aqui a mensagem. Cada época deve proceder de forma semelhante a Ulisses, no canto XI da Odisseia. É preciso fazer com que os mortos “falem”. E ainda, o ritual não pode ser feito uma única vez, é preciso repeti-lo a cada geração, pois só nós somos capazes de dar-lhes o dom da palavra.

Este livro é, justamente, um convite para que façamos o mundo antigo “falar”, pois, só assim, poderemos ― não retornar à Ítaca como o herói homérico ―, mas construir a Ítaca que almejamos.