Morre, em Olinda, aos 92 anos, Edson Nery da Fonseca (G1 – globo.com)

Leia a seguir matéria publicada no G1 (globo,com) sobre a morte de Edson Nery da Fonseca.Imagem

Morre, em Olinda, aos 92 anos, Edson Nery da Fonseca

Pernambucano foi vítima de complicações causadas por infecções.
Ele fundou cursos de biblioteconomia na UFPE, em 1950, e UnB, em 1965.

 O bibliotecário, professor e escritor pernambucano Edson Nery da Fonseca faleceu neste domingo (22), em sua casa, em Olinda, vítima de complicações causadas por infecções urinária e pulmonar. O escritor estava acamado havia muito tempo e recebia atendimento médico domiciliar. O quadro se agravou nos últimos dias.

A morte aconteceu por volta das 7h30 e o velório foi realizado na casa do escritor, na Rua de São Bento, no Sítio Histórico de Olinda, se estendendo durante toda a madrugada. Na segunda-feira (23), parentes, amigos e admiradores compareceram à missa de corpo presente, realizada no Mosteiro de São Bento, também em Olinda, às 9h.  O sepultamento aconteceu no Cemitério dos Ingleses, no Recife, logo em seguida. A família do escritor está enterrada no local.

Lúcido até o fim
No velório, amigos e parentes prestaram as últimas homenagens ao bibliotecário. A pedogoga Lucinha Maria, sobrinha de Edson, cuidou do tio nos últimos três anos. Ela contou que desde o domingo o quadro de saúde vinha se agravando, mas Edson Nery pediu para não ser encaminhado para fazer hemodiálise ou ser internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Até os seus últimos dias, meu tio estava lúcido, conversava, apesar da idade. Domingo, ele deixou de urinar, ficou fraco, e um médico veio até a casa. Mas ele disse que queria ficar em casa, não queria ser entubado”, contou. Edson Nery deixou um documento com Lucinha dando orientações sobre seu funeral, entre elas a ausência de flores, vestir a túnica do Mosteiro de São Bento e ser enterrado no túmulo da sua avó, no Cemitério dos Ingleses, no Centro do Recife.

“Meu tio era uma pessoa de opinião, criando até inimizades por conta disso. Sempre admirei ele por isso, pela inteligência, pela memória. Era um homem muito bom. A gente já estava esperando pelo falecimento, ele estava muito fraco nos últimos dias. Mas vai deixar muita saudade”, comentou Lucinha.

Edson Nery publicou cerca de 20 livros, alguns com a ajuda do historiador e pesquisador Clênio Sierra de Alcântara, que o acompanhou nos últimos anos. Ele recebeu da editora, na quarta-feira, a versão final de “A cidade e a história”, livro escrito em homenagem a Edson Nery da Fonseca. A obra não chegou a ser compartilhada com o bibliotecário. “Era muito bom conversar com ele, que tinha uma memória, sabia contar as histórias do passado. Era um grande homem”, disse.

Após o velório, corpo será levado para o Mosteiro de São Bento, também em Olinda, para missa de corpo presente; enterro será no Cemitério dos Ingleses, no Recife (Foto: Vitor Tavares / G1)

Professor universitário e especialista em Gilberto Freyre
Nascido no Recife em 1921, Edson Nery da Fonseca foi bibliotecário no governo municipal, nos anos 1940, sendo convidado, em 1950, pelo reitor da então Universidade do Recife (futura Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), professor Joaquim Amazonas, para fundar o curso de biblioteconomia.

Em 1965, inaugurou a mesma graduação na Universidade de Brasília (UnB), junto com Darcy Ribeiro. De 1980 a 1987, atuou como pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco . Em 1991, se aposentou da UnB, da qual era professor emérito. Em 2011, recebeu da UFPE o título de doutor honoris causa.

Considerado o maior especialista na obra do sociólogo Gilberto Freyre, Edson Nery da Fonseca organizou e publicou diversas obras sobre ele. Uma delas foi “O Grande Sedutor – Escritos sobre Gilberto Freyre de 1945 até hoje”, lançada durante a edição 2011 da Fliporto.

O livro reúne 135 textos de Edson Nery da Fonseca sobre Gilberto Freyre escritos entre 1945 e 2010. O autor sempre recusou o rótulo de curador de Freyre, deixando essa função para a Fundação dirigida pela filha do sociólogo. Depois que Gilberto Freyre morreu, Nery publicou quatro livros dele, um deles atendendo ao pedido do próprio autor: “Palavras repatriadas” reúne textos, conferências, escritos, proferidas em inglês e vertidas por diferentes tradutores para o português.

Fonte: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2014/06/morre-em-olinda-aos-92-anos-edson-nery-da-fonseca.html

Próximo lançamento: Tentativas de Interpretação de Edson Nery da Fonseca

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Em breve a Cassará Editora lançará Tentativas de Interpretação, de Edson Nery da Fonseca, com organização de Clênio Sierra de Alcântara. Leia a seguir texto da orelha do livro:

Há autores que ultrapassam os limites de sua obra, esse tipo de homem de letras consegue fundir a vida e o que escreve em um todo criativo. Edson Nery da Fonseca, sem sombra de dúvida, aí se inclui. Seus livros versam sobre um mundo particular e que foi por ele construído ao longo da vida: a incondicional defesa das bibliotecas; o amor à poesia; o dedicado estudo da obra de Gilberto Freyre; o constante diálogo com as mais importantes figuras da vida intelectual brasileira do século XX. Em síntese, um insaciável interesse por tudo que é humano. Em Tentativas de Interpretação encontramos uma parte desse rico universo em que se mesclam inseparavelmente o homem e a obra, uma excelente oportunidade para, mais uma vez, encantar-se com a figura desse – fazendo uso do título de um dos seus próprios livros – Grande Sedutor.

Victor Villon (historiador e tradutor)

Cora Rónai fala sobre Edson Nery da Fonseca

Cora Rónai fala sobre Edson Nery da Fonseca

Cora Rónai na sua coluna do jornal “O Globo”, Quinta-feira, 8 de maio de 2014, intitulada “Livros para o dia das mães”, ao comentar sobre a nova edição do clássico “Casa-Grande & Senzala”, destacou a “completíssima bibliografia do professor Edson … Continuar lendo

Memória e poesia (Revista Cult)

Em conversa com Humberto Werneck, Edson Nery da Fonseca relembra histórias e emociona plateia ao falar de Gilberto Freyre

Jaqueline Gutierres

“Gilberto Freyre era uma figura encantadora, de elegância e cordialidade naturais”, definiu o professor Edson Nery da Fonseca, em conversa com o jornalista Humberto Werneck, durante painel na VII Fliporto. Relembrando episódios de seus primeiros contatos com Freyre, Fonseca ressaltou, “ele recebia a nós, estudantes, muito inferiores intelectualmente, e queria nos ouvir, não falar”.

A mesa “Gilberto Freyre – um grande sedutor” recebeu o nome em referência ao livro de Fonseca, O grande sedutor – escritos sobre Gilberto Freyre de 1945 até hoje (Cassará). Freyre é o homenageado da 7ª edição da Festa, e Fonseca, convidado como o maior conhecedor de sua obra. O professor, porém, preferiu negar o título de curador, que Werneck lhe sugeriu durante a conversa. “Quem faz isso, e muito bem, é a Sonia Freyre, filha de Gilberto.”

Hoje com 89 anos, Fonseca conheceu Gilberto Freyre aos 20, após ter lido Casa grande e senzala(Global) no curso de Direito. “Meu professor falou que para conhecer a cultura brasileira, era preciso conhecer o Brasil, e que para conhecer o Brasil, era preciso conhecer Gilberto Freyre.” Antes disso, Fonseca havia ouvido críticas ao autor no colégio, “estudava em uma escola comandada por padres. Eles tinham muita raiva de Freyre, diziam que era comunista. Curioso é pensar que hoje em dia ele é acusado de direitista”.

Fonseca relembrou o contato com Freyre, quando o ajudava com cópias de documentos que seriam usadas para um livro jamais lançado, Jazigos e covas rasas. Ao longo das pesquisas para a escrita da obra, Freyre chegou a algumas conclusões, “ele não gostou disso, ele cultivava a inconclusão. Sua disposição eram as obras abertas. Por exemplo, você termina de ler Casa Grande e Senzala e pensa: e o resto?”. Por isso, com a desculpa de que teria sido assaltado e os documentos levados, Freyre nunca publicou a obra.

O palestrante mostrou ótima memória ao recitar poesias. Entre as declamações, “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados”, de Gilberto Freyre, e “Evocação ao Recife”, de Manoel Bandeira. Sobre este último, “Freyre pediu a Bandeira que escrevesse um poema sobre o Recife para o Livro do Nordeste. Bandeira não gostou muito da ideia, disse que poesia não se encomendava, mas depois de um tempo resolveu escrevê-la.” Quando Werneck pediu que recitasse o poema de Bandeira, quase ao final do painel, Fonseca indagou: “mas ainda há tempo?”, a que recebeu a resposta, “mesmo que não houvesse”. A plateia pareceu concordar, com fortes aplausos.

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2011/11/memoria-e-poesia/