Artigo sobre o livro “Joana D’Arc: Verdades & Lendas” publicado no blog da historiadora Mary Del Priore

Leia texto sobre o livro de Colette Beaune, Joana D’Arc: Verdades & Lendas (Cassará Editora),  no blog da historiadora Mary Del Priore:

Joana D’Arc, Verdades, Lendas e Polêmicas

por Victor Villon

           http://historiahoje.com/?p=2366

Joana D'Arc Mary Del Priore Victor Villon Cassará

 

Anúncios

Heroína Construída sobre mitos e verdades por Bolívar Torres (O Globo, Prosa & Verso)

Colette Beaune Prosa e Verso O Globo

Historiadora francesa Colette Beaune, especialista em Idade Média, desmonta teorias conspiratórias sobre a Donzela de Orléans

Por Bolívar Torres

Quando o assunto é Joana D’Arc, paira no ar uma espécie de síndrome de Código da Vinci: cada mitógrafo tenta encontrar uma versão secreta da história da Donzela de Orléans oferecendo interpretações equivocadas, parciais e/ou fantasiosas de documentos históricos. A corrente conhecida como “sobrevivencialista”, por exemplo, acredita que Joana teria sido substituída por uma desconhecida na fogueira dos borguinhões — e reaparecido anos mais tarde com o nome de Claude des Armoises. Já os “bastardizantes” insistem que, em vez de uma humilde camponesa, ela seria filha ilegítima do príncipe e líder armagnac Louis D’Orléans com a rainha Isabeau de Bavière.

Estas teorias da conspiração não são novas — existem desde a Idade Média —, mas voltaram a ganhar força recentemente. Serviram de base para o polêmico livro “L’affaire Jeanne D’Arc”, de 2007, no qual o jornalista investigativo Marcel Gay e o paleógrafo Roger Senzig afirmam que a heroína não passaria de uma elaborada manipulação da família real. A jovem teria sido instrumentalizada pelos armagnacs, que fabricaram uma “enviada de Deus” para dar um novo rumo à Guerra dos Cem Anos.

Medievalista renomada e uma das principais especialistas em Joana D’Arc, Colette Beaune resolveu jogar um balde de água fria nas especulações. Publicado em 2008 na França, e recém-lançado no Brasil pela Cassará, seu “Joana D’Arc — Verdades e lendas” é uma espécie de acerto de contas não apenas com a obra de Gay e Senzig, mas com todos aqueles que, segundo ela, insistem em afirmar “qualquer coisa” — o famoso n’importe quoi — sobre uma das principais figuras da História francesa. Professora emérita da Paris-Ouest Nanterre, Colette troca o tom didático habitual por uma retórica feroz e sarcástica. De capítulo em capítulo, desmonta meticulosamente as hipóteses que considera improcedentes, como uma anti-Dan Brown.

Vale lembrar que, em 2004, a historiadora já havia escrito uma premiada biografia sobre Joana. Voltar ao assunto apenas quatro anos depois não estava originalmente em seus planos. Mas o frisson em torno das teorias de Gay e Senzig a irritou. Ao ser convidada para opinar sobre a polêmica na TV, um jornalista lhe sugeriu que seria preciso fazer alguns “arranjos com a verdade” para atingir as massas.

— Ele me disse que estes mitos eram “muito bons” para o grande público. Em resumo, quis dizer que a história erudita seria reservada apenas às elites, as únicas capazes de entender e comprar livros. Mas fui professora durante 30 anos e sei que é possível transmitir elementos complexos a todos — conta a historiadora ao GLOBO, em entrevista por e-mail.

O “caso” Joana D’Arc é, de fato, complexo. Embora seja a mulher mais bem documentada da Idade Média, os registros conhecidos estão longe de formar um consenso sobre sua trajetória. Mito em vida, a Donzela foi objeto de dois discursos antitéticos. Desde o século XV, já havia duas Joanas possíveis e opostas: a dos armagnacs (piedosa e devotada ao rei Carlos) e a dos borguinhões (bruxa e impostora). Em seu campo, santa e profetisa; no campo inimigo, diabólica e manipulada pelos franceses. As contradições criaram zonas cinzentas, “e nenhum dos dois conjuntos míticos é necessariamente mais verdadeiro” do que o outro, lembra Colette. Não há fonte totalmente confiável. O problema, afirma a historiadora, é que na ânsia de desmistificar a heroína e criar hipóteses racionais, os mitógrafos atuais bebem sem restrições no imaginário dos borguinhões — afinal, estes apontavam as vozes como embuste e procuravam maquinações da família real e da Ordem Franciscana para explicar os feitos inacreditáveis de uma adolescente.

Em alguns casos, diz Colette, os argumentos dos mitógrafos se apoiam em uma compreensão errada do contexto histórico medieval ou na omissão proposital de algumas verdades. A historiadora as restabelece. É certo que Joana vinha de uma família camponesa abastada e, embora filhos bastardos fossem comuns entre os nobres, não há prova aceitável de que ela tenha nascido na corte. Para os “bastardizantes”, o simples fato dela se apresentar como “Jeanette” (diminutivo de Joana, em francês) comprovaria um desejo de esconder seu “verdadeiro” nome (Joana d’Orléans, filha ilegítima do príncipe). Só que, na Idade Média, as adolescentes do campo eram chamadas apenas pelo primeiro nome, lembra Colette.

Também não há dúvidas de que Joana morreu queimada — muitas das teorias contrárias se utilizam, na verdade, de traduções falhas do latim. Quanto à questão das vozes, não importa se foram alucinações, doenças mentais ou profecias verdadeiras. Trata-se de um fato histórico incontestável, escreve Colette. Existindo ou não, funcionou como verdade para Joana, já que escolheu morrer por elas. E é improvável que alguém aceite morrer por algo em que não acredite, frisa a historiadora.

Para Colette, é preciso se preocupar com as representações tanto quanto com os fatos. Ao escrever a biografia de Joana em 2004, ela procurou antes de tudo compreender como esta era vista por seus contemporâneos, tanto no campo armagnac quanto no borgonhês. O que implica encarar interrogações sem respostas em vez de difundir afirmações prontas.

Não deixa de ser irônico: ao tentar desmontar um mito, os entusiastas do complô acabaram criando outro mito, baseado em erros históricos. E que ainda se revela conservador ao negar que uma mulher jovem, pobre e pouco educada possa ter sido capaz de realizar grandes façanhas e se tornar um símbolo feminino.

— Os historiadores precisam saber quais são os mitos criados na época de Joana e quais são aqueles nascidos no século XIX — diz Colette. — Mitos sempre nos ensinam algo sobre a sociedade que os produziu. Os mitógrafos dos século XIX, assim como os de hoje, são republicanos laicos que deixam Joana desconfortável como monarquista, como piedosa e também como mulher independente.

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/11/30/joana-arc-heroina-construida-sobre-mitos-verdades-516748.asp