Jovem fotógrafa apresenta exposição sobre Nova York na Rua do Lavradio


Nicole e algumas das fotos da exposição: o dia a dia de uma metrópole – Eduardo Naddar / Agência O Globo

RIO – Moradora do Alto da Boa Vista, a fotógrafa Nicole Batista, de 22 anos, apresenta, na Sociedade Brasileira de Belas Artes, em sua exposição de estreia, a partir do dia 29, um olhar diferenciado sobre Nova York. O trabalho da jovem, que reúne 81 fotos e será transformado em breve em livro, foi batizado de “EUs”.

— Eu fui a Nova York com a ideia de registrar os subúrbios da cidade. Só que, ao chegar lá, eu me surpreendi com o que vi e acabei resolvendo mudar a minha abordagem. Passei, então, a registrar a metrópole como ela é de fato, em seu cotidiano, longe dos estereótipos e dos tão explorados pontos turísticos — explica Nicole.

SERVIÇO

Sociedade Brasileira de Belas Artes. Rua do Lavradio 84, Centro. Tel.: 2909-6718. O coquetel de inauguração será no dia 28, às 17h30m. De 29 de abril a 14 de maio, de segunda a sexta, das 13h às 17h. Entrada franca

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/bairros/jovem-fotografa-apresenta-exposicao-sobre-nova-york-na-rua-do-lavradio-15873594#ixzz3aMsWftnW

Crianças na fogueira do divórcio

Advogada especializada em Direito de Família, Alexandra Ullmann acompanha, há dez anos, histórias de divórcios que não caminham bem. Sem acordo, viram uma batalha e os filhos, armas a serem manipuladas. Carioca, mãe de uma moça de 21 anos, divorciada e amiga do ex-marido e sua atual companheira, Alexandra lança, no dia 3 de março, no Rio, um livro infantil em que retrata, com belas ilustrações de Gregório Medeiros, as angústias contadas por crianças vítimas da disputa dos pais. Em Tudo em dobro ou pela metade (Cassará Editora), a voz infantil ganha força e recorre à imaginação para encenar, num teatrinho, a mensagem perfeita para uma família que se dividiu: no coração de uma criança cabe tudo em dobro. Crueldade é exigir que ela fique só com metade. Formada também em Psicologia, a advogada conversou sobre o tema do livro. Seguem os principais trechos.

A advogada Alexandra Ullmann: ""O ódio do casal se transforma na lenha da fogueira em que o filho vai arder". (Foto: Divulgação)
A advogada Alexandra Ullmann: “”O ódio do casal se transforma na lenha da fogueira em que o filho vai arder”. (Foto: Divulgação)

ÉPOCA – Crianças sempre sofrem no divórcio dos pais?
Alexandra Ullmann
 – Lidamos com muitos litígios. Raros são os casos de acordo consensual e as crianças sempre sofrem. Os pais, na grande maioria dos litígios, não poupam as crianças. Acham que a dor vai passar, que elas vão esquecer, ou pior, que elas têm que conhecer os defeitos do pai e da mãe. São frases muito comuns. Comecei a ver que não adiantava aconselhar, sugerir terapia, algo que a maioria até faz, porque, no fundo, essas pessoas não conseguem elaborar de forma racional a separação, sobretudo quando há briga, traição e partilha de bens. Num litígio, até os mais sensatos perdem a sensatez. Eu costumo chamar a família para um papo e escutar a criança, que sempre fala claramente o que acontece. O livro traz exemplos da realidade. As crianças dizem assim “meus pais acham que eu não sei de nada. Eu prefiro mentir para minha mãe dizendo que é ruim ficar com meu pai”. Eu aviso ao pai e à mãe que a criança, para sobreviver, é obrigada a viver numa mentira. Uma criança me disse certa vez que o pai tirava o chip do celular para a mãe não poder telefonar quando ele estava com ela (essa história está no livro). Ouvi aqui o relato de um pai que recebeu o telefonema da filha de sete anos perguntando se ele tinha postado o vídeo da apresentação do balé dela e quantos likes o vídeo tinha recebido. A conversa acabou mas, como a menina não desligou o telefone, ele ouviu o diálogo que se seguiu com a mãe dizendo para a criança “tá vendo como seu pai não tem amigos? Ninguém gosta dele.”

ÉPOCA – A criança é a maior vítima da alienação. Ela pode fazer algo para estancar esse processo?
Alexandra – Algumas crianças conseguem. Uma juíza do Mato Grosso me contou um lance que me emocionou. Ela leu o livro para uma menina que estava desesperada durante uma audiência. A menina foi se acalmando e disse “tia, eu achava que era só eu que passava por isso”. Conheço um caso de alienação grave, que começou quando os gêmeos tinham seis meses. Aos seis, o menino não falava com o pai. Hoje, aos 12, numa nova tentativa da mãe de reduzir o tempo das crianças com o pai, o menino colocou de forma bem direta: “Minha mãe fala mal do meu pai o tempo inteiro, e ela quer que eu faça isso, mas não dá, não vou falar mal do meu pai porque gosto dele.” Firme assim. Mas tem criança que não suporta a pressão, e aí a história fica triste demais. Teve criança que tentou se matar com uma facada na barriga aos sete e, aos 12, ameaçou pular do parapeito. Isso aconteceu numa família abastada, em que os pais não se entendem. Outra criança, de 12 anos, cortou os pulsos. Perdi muita a fé em tudo. Lido com o pior do ser humano todos os dias, são pessoas que não se importam com uma criança. O bullying é um tema que vem se popularizando no ambiente escolar. A alienação parental, não.

ÉPOCA – As escolas estão preparadas para tratar do assunto?
Alexandra – A maioria das escolas não está preparada para lidar com essas questões. São poucas as que promovem debates sobre esse assunto. Há mais de cinco anos, falo com os pais sobre responsabilidade civil pelos atos dos filhos e com a garotada também. Com esse livro, minha ideia é montar uma peça para levar às escolas porque a mensagem principal é para os pais mesmo. Além do mais, a nova lei da guarda compartilhada, aprovada em dezembro, prevê multa para todo estabelecimento, público e privado, que não fornecer aos genitores – independentemente de quem tem a guarda – informações sobre o filho. A grande maioria das escolas desconhece isso porque a lei é muito nova ainda.

Tudo em Dobro - ou pela metade? (Foto: Divulgação)
Tudo em Dobro – ou pela metade? (Foto: Divulgação)

ÉPOCA – Como a senhora lida com clientes que incidem em alienação parental?
Alexandra – Se eu perceber que há alienação, não entro no processo. Eu me recuso. Mas se eu não souber e vir que meu cliente está fazendo isso, oriento porque muitos não percebem, fazem por raiva ou vingança, mas exijo “ou enquadra, ou eu não continuo”. E já mandei vários embora.  Somos humanos, todos erramos, mas é preciso se dar conta do dano causado à criança. Existem inúmeros casais que alienam enquanto casais com aquela história do “seu pai não presta para nada” ou “sua mãe parece não gostar tanto de você assim”. Quando vem a separação, aquela estrutura rui porque as pessoas não separam o casamento da parentalidade. Os casais que conseguem manter os filhos longe da separação certamente terão adolescentes mais tranquilos e adultos sem problema de relacionamento no futuro. Filho é 50% um e outro, ao anular a outra metade, o alienador está destruindo metade da origem de uma criança.

ÉPOCA – O que o pai ou a mãe consciente, que não chantageia o filho, pode fazer para atenuar o sofrimento imposto pelo outro genitor?
Alexandra – 
É muito complicado. Tentamos mostrar ao juízo que a situação exige terapia e laudos que comprovem a alienação. O problema é que o tempo do Judiciário não é o tempo da criança. Para o alienador, quanto mais tempo demorar, melhor. E um advogado mal intencionado pode esticar um processo de um para dez anos.

ÉPOCA – É possível dizer a partir de que idade a criança consegue romper com a manipulação?
Alexandra – 
Não dá. Depende do laço estabelecido antes entre o filho e o genitor alienado. Crianças muito pequenas com ótimos laços são menos esponjas. Outras passam a crer na mentira. É tão fácil implantar memórias em crianças. Elas repetem tudo, como se lembrassem de histórias que lhes foram contadas. Se o pai ou a mãe estabelecer alguma relação com uma ponta de verdade, basta. Acabou a verdade e ficou a mentira.

>> Outras colunas de Isabel Clemente

ÉPOCA – Pessoas de fora do núcleo familiar, como avós, tios, amigos muito chegados, aprofundam a alienação?
Alexandra – Na grande maioria dos litígios, acontece um apartheid dos amigos porque as partes entram numa de dizer “se você é amigo dele não pode ser meu”. Não tem mais os “nossos amigos”. O alienador busca respaldo, daí espalha que está ficando sem pensão, fala mal do ex-cônjuge, reclama, e o amigo acaba ficando com raiva também e começa a repetir isso. A alienação fora da esfera familiar é comum, e vem do entorno da criança.

ÉPOCA – Como essas mesmas pessoas poderiam ajudar uma criança em conflito?
Alexandra – Já teve avó me procurando para dizer que a filha está praticando alienação e não sabe mais o que fazer. A gente pode encaminhar para tratamento psicológico, chamar para conversas. Cabe aos amigos também chamar a pessoa à realidade, caso ela esteja cega pela raiva porque é bom avisar que, se for brigar na Justiça, vai acabar perdendo a guarda do filho. As pessoas perdem a noção. Tivemos um caso em que um pai acusou a mãe de praticar swing e que, por isso, ela não poderia ser uma boa mãe. Ele tinha fotos e estava no meio. Ué, ela não pode mas ele podia? Como é isso? O comportamento que era mútuo ou aceito vira combustível para a alienação. O ódio se transforma na lenha da fogueira em que o filho vai arder. E a criança queima, ciente de tudo que se passa.

ÉPOCA – Alienação parental não é um fenômeno novo, sempre existiu, mas discutir o problema nos tribunais é recente, não?
Alexandra – Quando o pai deixa de ser provedor e quer assumir o papel na educação do filho é que esse drama veio à tona. Não existe mais a visita do pai. A palavra é convivência.  É um entendimento arcaico partir do pressuposto de que a mãe é melhor.  Pessoas são pessoas, têm defeitos e qualidades. Pais querem conviver mais. Antes, eles pegavam as crianças limpas, levavam para passear e pronto. Devolviam. Hoje os pais querem dividir responsabilidades, participar das reuniões da escola, das decisões, pegar e levar, conviver.  Eles têm um papel. Pela ótica freudiana, o pai é o limite, é quem chega para mostrar ao filho que a mãe não é a extensão dele.

ÉPOCA – A senhora consegue distinguir um perfil mais propenso a usar o filho como cabo de guerra?
Alexandra –
Não tem perfil, classe social, nada. Pessoas acima de qualquer suspeita piram igual a qualquer um. As pessoas estão cada vez mais difíceis de lidar. Há muita falsa acusação de abuso sexual, que é o último degrau da alienação. Existe claramente um caminho seguido por quase todos os acusadores. O pai ganha mais tempo com o filho, entra o pernoite, a mãe começa a dificultar esse encontro, aí surge uma namorada do pai, a mãe complica mais ainda a aproximação, daí o pai entra com uma ação para reconquistar o que está perdendo e, na resposta, a ex-mulher aparece com uma acusação de abuso sexual, alegando que era uma desconfiança antiga que aumentou com o tempo. Tenho um cliente que ficou uma semana detido acusado de abusar do próprio filho, sem prova alguma, com todos os laudos dando negativo. Bastou a palavra da ex-mulher. Há um ano não conseguimos nem convivência vigiada para ele ver o filho. O tempo passa e, à medida que ele perde nos pleitos, reforça a falsa memória implantada na criança com o discurso do “tá vendo? Tanto é verdade que o juiz não deixou mais você estar com ele”.

ÉPOCA – O que é mais difícil para um pai ou mãe que sofre alienação parental?
Alexandra – Educar, dizer não. Eles acham que não podem mais contrariar os filhos, temendo que eles não queiram voltar. Eu digo que, até os 18 anos, a responsabilidade é dele sim, é o pai e a mãe que tomam decisões. O genitor alienado fica fragilizado. Eu tenho um cliente que passou por isso. Disse não e a filha não quis mais voltar. É muito comum o alienador jogar a decisão no filho com um “eu deixo, ele é que não quer”. Educar é dizer não e permitir que o outro diga também.

Fonte: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/isabel-clemente/noticia/2015/02/criancas-na-bfogueira-do-divorciob.html

EUs – Um olhar sobre Nova York

A fotógrafa Nicole Batista, de 22 anos, faz sua primeira exposição “EUs – Um olhar sobre Nova York”, em fotos P&B, mostrando o dia a dia da cidade sob outros ângulos que não o de cartão postal.

Além da exposição, que tem como curadores o artista plástico Márcio Augusto Verde e o fotógrafo Roberto Vieira Alves, sua viagem a Big Apple rendeu um livro – “EUs” -, que será lançado pela editora Cassará. Com 100 páginas e fotos inéditas, o trabalho tem prefácio do jornalista e fotógrafo Alexandre Raupp.

Fonte:
http://rioshow.oglobo.globo.com/eventos/galerias/eus-um-olhar-sobre-nova-york-12847.aspx

“Obra de Kazantzákis narra feitos de El Greco” por Ivo Barroso (O Globo Prosa & Verso)

Kazantákis Relatório ao Greco Lucilia Soares Brandão Carolina Donega Bernardes Cassará

Pela primeira vez traduzida do grego, livro do escritor morto em 1957 narra os feitos reais e idealizados do pintor, seu conterrâneo que viveu na Espanha entre os séculos XV e XVI

POR IVO BARROSO *

RIO – Em 1957, já mundialmente conhecido e então endeusado com a exibição de um filme baseado em sua obra (“Aquele que deve morrer” ou “O Cristo recrucificado”, de Jules Dassin), Nikos Kazantzákis (1883-1957) resolve empreender, com sua mulher Élena, mais uma de suas viagens ao Oriente, desta vez com ênfase na China e no Japão. Após visitar a China, cujos resultados da revolução, ocorrida oito anos antes, o sempre curioso cretense queria conhecer, o casal se detém em Hong Kong, onde seria necessário vacinar-se contra a cólera e a varíola, requisitos oficiais para se entrar no Japão. Kazantzákis lutava contra uma incipiente leucemia e a vacina, neste caso, provocou uma reação nefasta: paralisou-lhe o braço direito, que precisaria ser amputado. Élena salva o marido da mutilação, levando-o de volta para Frieburg, na Alemanha, onde um tratamento de choque consegue aproximá-lo da sonhada recuperação. Mas Kazantzákis, “um dos maiores espíritos do século XX” (no dizer de Otto Maria Carpeaux), sente que seu fim está próximo e precisa concluir a sua obra. Nestas circunstâncias é que se lança, com todo empenho, na revisão e conclusão daquele que seria seu testamento espiritual, o “Relatório ao Greco”. “Guardo minhas ferramentas… a tarefa terminou… como uma toupeira, volto para a casa, para a terra. Não por ter me cansado de trabalhar, não me cansei, mas o sol se pôs.”

Doménikos Theotokópoulos (1541-1614), nascido na mesma Heráclion cretense de Kazantzákis, depois de uma longa peregrinação artística pela Itália, fixou-se em Toledo, na Espanha, onde se tornou o grande pintor hoje conhecido por El Greco. A esse ancestral, que como ele carregava nas mãos um torrão do solo natal, Kazantzákis dedica seu livro-testamento, simbolizando nessa figura todo um passado glorioso de sua estirpe. No texto, muitas vezes o pintor é assimilado ou confundido com o próprio pai e com o avô do poeta. E a narração de seus feitos, reais ou idealizados, se confunde com a própria saga de uma Hélade dominada e ressurrecta, que consegue superar-se com base em seus valores históricos, na epopeia de seus heróis. Para completar o livro, a história de sua permanente procura de Deus e da sabedoria, Kazantzákis deixa de lado outros grandes projetos em se envolvera: a tradução para o inglês de sua recriação da “Odisseia”, de Homero, com 33.333 versos e o “Terceiro Fausto”, que sempre sonhara escrever.

A vida e a obra de Kazantzákis encerram uma permanente busca da superação. Já em seu livro “Ascese, salvatores dei”, o autor procurava desesperadamente conciliar as antinomias que lhe atormentavam a consciência: a ação e a contemplação, buscando uma síntese entre o comunismo e o cristianismo. Passara por fases espirituais transcendentes: Buda, Lênin, Cristo, Bergson, Nietzsche, superando cada uma delas com a ideia de que a verdade total não lhe havia sido ainda de todo revelada, que era preciso ir mais longe, mais fundo, mais alto, um passo além do que julgara ser o último possível. Já na maturidade de seu pensamento, tentando a superação do destino e dos valores arraigados, Kazantzákis sente a necessidade de relatar sua experiência de vida, sua luta obstinada de encontrar a verdade e Deus, não para amá-los, mas para contestá-los e destruí-los. Num de seus diálogos com Deus, o autor conclama: “Sou um arco em suas mãos, Senhor, tensione-me senão apodreço. Não me tensione demais, Senhor, posso quebrar-me. Tensione-me, Senhor, mesmo que eu quebre.” Essa luta e essa esperança é que são as entranhas da confissão-despedida-testamento, o “Relatório ao Greco”, na qual se ouvem ecos de Zaratustra e conselhos de Demian…

TRADUÇÃO EXCEPCIONAL

O leitor brasileiro tem agora a oportunidade de conhecer essa obra fundamental numa minuciosa tradução feita diretamente do grego por Lucília Soares Brandão, diplomada em tradução pelo Centro de Língua Grega de Tessalônica, que vem se dedicando ao estudo continuado da obra de Kazantzákis. O prefácio de Carolina Dônega Bernardes, que se doutorou com a tese “A Odisseia de Nikos Kazatzákis: epopeia moderna do heroísmo trágico”, permite ao leitor se posicionar num ângulo mais amplo para a apreciação deste trabalho. De excepcional qualidade literária, a tradução encontrou seu veículo certo na jovem editora Cassará, que ora se propõe a publicar outras obras do autor.

Até os anos 1990, as traduções de Kazantzákis chegavam até nós sob a forma de retraduções do inglês ou do francês. Embora algumas delas fossem assinadas por grandes nomes da literatura brasileira, como Clarice Lispector, só em 1997 José Paulo Paes nos deu a primeira tradução de Kazantzákis feita diretamente do grego (“Ascese, salvatores dei”). Além disso, tais edições não raro se apresentavam sem um estudo introdutório que as comentasse ou situasse. O leitor ficava sem instrumentos para melhor apreciar a importância da obra. Com esta nova tradução de o “Relatório ao Greco” feita diretamente do original e devidamente comentada, podemos esperar que em breve toda a obra genial de Kazantzákis nos seja oferecida em versões tão próximas possíveis daquilo que ele de fato escreveu.

* Ivo Barroso é poeta e tradutor

Entrevista com Carolina Bernardes, autora do ensaio introdutório de “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis

No dia 6 de outubro, ocorrerá na Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel – UERJ, Rio de Janeiro, uma jornada de estudos consagrada ao livro “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis. Livro que teve um papel fundamental para Hilda Hilst. Na ocasião será lançado pela Cassará Editora a primeira tradução, feita diretamente do grego moderno, de “Relatório ao Greco” (Tradução: Lucilia Soares Brandão / 488p.). Leia a seguir a entrevista, publicada na página do Facebook do Instituto Hilda Hilst, com Carolina Bernardes, pesquisadora da obra de Kazantzákis, que assina o ensaio introdutório da nova edição de “Relatório ao Greco”.

Existe uma história da recepção de Kazantzakis no Brasil, no entanto, há muito por se fazer visto que a maioria de seus livros ainda não está traduzida para o português. Qual é a história dessa recepção e o que ainda precisa ser traduzido?

C.B. Há pouquíssimos anos, a obra de Kazantzakis chegava ao leitor brasileiro por traduções indiretas do grego (normalmente vindas do inglês), em edições descuidadas. Faltavam nos livros e no âmbito acadêmico textos críticos e estudos, sejam eles de mera apresentação ou de análise aprofundada, o que desfavorecia a difusão do escritor para um público maior. Temos, entretanto, José Paulo Paes como um bandeirante nos estudos de literatura grega moderna, que produziu ensaios, antologias e traduções de Kaváfis, Seféris e de Ascese Os Salvadores de Deus (Ática, 1997) de Kazantzakis. Lucília Soares Brandão também foi uma bandeirante ao estudar Kazantzákis na esfera acadêmica. Apesar das inúmeras dificuldades – o idioma pouco familiar, a escassez de traduções e de material de pesquisa, a distância geográfica e cultural – aos poucos, os estudos acadêmicos começaram a surgir e tem existido atualmente um grande interesse de alunos que se arriscam a escolher Kazantzakis como tema de estudo. A tendência das traduções é a mesma. Não só estão sendo traduzidas as antigas obras que foram vertidas do inglês, como também outras que eram inéditas ao leitor brasileiro. A obra de Kazantzakis é vasta, portanto, é cedo ainda para afirmar o que falta ser traduzido, como se pudéssemos contar nos dedos, mas quando a Odisseia tiver sua versão brasileira, teremos avançado para além das colunas de Hércules.

Como surgiu seu interesse por Kazantzákis?

C.B. Cheguei a Kazantzakis pela porta costumeira: Zorba. Um livro esquecido na estante de meu pai. Sabemos que Zorba vai além do fictício (um homem que realmente existiu), mas era mais do que isso: a narrativa é tão bem construída que aquele homem rude e dionisíaco passou a viver em minha casa. Mais tarde, trabalhando em uma livraria, encontrei Ascese esquecido no estoque por meros onze reais. Abria o livro, mas não conseguia ler, tamanho o encanto e medo que me despertava. Estudá-lo no mestrado foi um caminho natural, não havia outra escolha. As dificuldades foram enormes, principalmente no começo dos anos dois mil, em que o acesso ao material de pesquisadores estrangeiros não era uma prática tão corrente. A falta de bolsa de incentivo foi outro empecilho. Foi um período em que convivi apenas com meus próprios recursos de pesquisa. O doutorado foi um pouco diferente, pois tive a meu favor a bolsa FAPESP, podendo assim compor uma excelente biblioteca sobre Kazantzakis, que hoje se encontra na UNESP de São José do Rio Preto para consulta de qualquer leitor interessado. Como o objeto de pesquisa foi a Odisseia, não teria conseguido concluir a pesquisa se não fosse o apoio financeiro. Fui imensamente favorecida também pela amizade com Miguel Castillo Didier, professor chileno e tradutor da Odisseia para o espanhol. O que inicialmente atraiu meu interesse pela obra de Kazantzakis é a característica multidiscursiva de sua obra, ou seja, a mistura de áreas do saber (como a filosofia, a religião e a literatura), assim como de doutrinas e personagens de épocas distantes. Porém, quem lê Kazantzakis sabe que esse interesse ultrapassa o texto. Não só Zorba é um personagem com o qual se convive; Kazantzakis é o amigo para quem se apresenta o relatório de viagem e de quem se ouve a voz como conselho a cada confronto com o abismo.

“Relatório ao Greco” foi um livro essencial para Hilda Hilst. O que representou para a autora a leitura desse livro?

C.B. Os registros biográficos indicam que, em 1962, Hilda Hilst recebeu de presente “Relatório ao Greco” em francês e a leitura significou um divisor de águas em sua vida. É então que ela se muda para a chácara conhecida como Casa do Sol para dedicar-se à literatura em silêncio, distanciada do mundo, uma ação que teria sido estimulada pela obra de Kazantzakis (em muitas obras do autor o distanciamento do mundo é visto como necessário para o conhecimento de si e de Deus, a contemplação seria uma das etapas da ascese). É evidente que uma autora como Hilda deve ser lida e estudada com apuro acadêmico e não é possível falar aqui apressadamente de seu trabalho. Mas, em linhas gerais, a proximidade literária entre Hilda e Kazantzakis já tem sido apontada por estudiosos, pois o autor grego não só foi o estímulo para uma efetiva mudança de vida, mas também o companheiro de uma busca filosófica que se revela, como por exemplo, na apreensão da figura divina e na maneira como ambos representam Deus em suas obras.

Kazantzakis é um autor que pertence à Literatura Grega moderna, mas sua obra possui diversas referências à Grécia Antiga. A seu ver qual é o papel da Grécia Antiga na obra de Kazantzakis?

C.B. A relação com a Grécia Antiga não é específica de Kazantzakis, mas se mostra presente em muitos autores da Grécia moderna, como Kaváfis e Seféris. O passado glorioso perdura como sombra para esses poetas descendentes e isso é representado de maneiras diferentes na obra de cada um. Além disso, lançar pontes entre o passado e o presente é uma tendência modernista, com o intuito de constituir o novo e reavaliar a atualidade a partir do que ficou inscrito na história. O que Kazantzakis faz é uma reinscrição da Grécia antiga em algumas de suas obras, fundindo épocas distantes e inserindo valores modernos no ambiente clássico, ao mesmo tempo em que reaproveita valores antigos como plenamente atuais. Por meio do conceito de élan vital de Bergson (corrente filosófica básica para o entendimento da obra kazantzakiana), Kazantzakis aproxima as duas Grécias como se jamais pudessem se distanciar.

A sua pesquisa de doutorado resultou no livro “A Odisseia de Nikos Kazantzakis: epopeia moderna do heroísmo trágico”, publicado pela Cassará em 2012. Você poderia nos dizer, resumidamente, qual é a sua leitura da Odisseia de Kazantzákis?

C.B. Assim como a escolha de Ascese para análise no mestrado foi natural, concentrar-me na Odisseia no doutorado seguiu a mesma tendência, porque a viagem protagonizada pelo Odisseu kazantzakiano é a consumação concreta da viagem simbólica e abstrata que ocorre em Ascese. A Odisseia é uma obra de difícil leitura, tanto pela sua dimensão – 33 333 versos – quanto pela enormidade de temas e caminhos de análise que evoca. A leitura que realizei é apenas uma das possíveis e não se chega jamais satisfeito ao final do percurso crítico nesta obra, pois inúmeras possibilidades são deixadas de lado (obviamente, não é possível abarcar todas em uma tese). Escolhi investigar a figura de Odisseu como poeta criador a partir das ações já conhecidas do herói homérico, e desse modo, reavaliando o personagem clássico e a amplitude de sua significação na literatura moderna; como Kazantzakis se coloca na tradição da epopeia clássica para atualizá-la na modernidade, época em que o gênero foi considerado esgotado; as implicações filosóficas que orientam o percurso do herói. É uma obra oceânica que excede resumos bem delimitados, mas para aqueles que pensam em se aventurar na leitura: se propõe como continuação da obra de Homero, a partir dos últimos feitos de Odisseu em Ítaca, levando-o mais uma vez ao mar para uma navegação inteiramente nova, após abandonar a família e o ambiente homérico. Este Odisseu é o sedento por conhecimento e reconhece na marcha ininterrupta o único caminho para se viver na plenitude dionisíaca e para preparar o terreno ao homem futuro, aquele capaz de dar continuidade à ascensão. Nas palavras de Kazantzakis: a Odisseia é um rio que flui em direção ao futuro.

Carolina Bernardes é Mestre em Estudos Literários pela UNESP de Araraquara, com pesquisa sobre a obra Ascese Os Salvadores de Deus de N. Kazantzakis; Doutora em Letras pela UNESP de São José do Rio Preto, com tese sobre a Odisseia de Kazantzakis, publicada pela Cassará. Tem artigos publicados no Brasil, França, Portugal e Chile, e tem colaborado na difusão e leitura crítica da obra kazantzakiana. É escritora e professora no ensino superior.

Fonte: página Facebook Instituto Hilda Hilst, 22 de setembro de 2014: https://www.facebook.com/InstitutoHildaHilst

Entrevista com Lucilia Soares Brandão, tradutora de “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis

Leia a seguir entrevista com Lucilia Soares Brandão, que traduziu para o português, pela primeira vez, diretamente do grego moderno, o livro “Relatório ao Greco”, de Níkos Kazantzákis. “Relatório ao Greco” será lançado no dia 6 de outubro pela Cassará.

Como nasceu seu interesse por Kazantzákis?

L.S. B. Eu não diria “interesse”, mas sim, amor. Realmente, o que mantenho com a obra desse grande poeta é uma verdadeira relação de amor. Tudo começou com a leitura de “O Cristo Recrucificado” traduzido para o francês que, em uma de suas viagens, meu pai achou em uma livraria de Paris. Foi esse “espanto” – e leia isso ao modo grego de θαυμασμός – esse verdadeiro maravilhamento com a leitura do romance que me fez aprender o grego porque, se, na tradução, já era bom, imagine no original… E nunca me arrependi.

Você poderia nos contar como foi o seu percurso de formação em língua grega?

L.S.B. Não foi dos mais fáceis, simplesmente porque aqui não existia, assim como não existe, nenhum curso que ensine o grego moderno. O grego antigo, você pode estudar em algumas universidades, mas, o moderno, não.

Assim, fui uma autodidata, aprendi sozinha usando o método francês Assimil. Depois que eu já possuía alguma proficiência, fiz cursos de grego em Atenas, inicialmente, no Athens Center, um excelente curso, diga-se de passagem, e, posteriormente, na universidade da Tessalônica e na universidade de Atenas.

No que diz respeito a “Relatório ao Greco”, como foi sua experiência de tradução? Houve desafios? Quais foram?

L.S. B. Se houve desafios? Só houve desafios. Apesar de escrever no grego moderno – o que facilita a tradução – a linguagem de Kazantzákis é bastante complicada porque, além do dialeto cretense, ele utiliza palavras do grego antigo, de grego bizantino e ainda cria palavras. Um dos problemas para a tradução é o fato de não existir nenhum dicionário, nem razoável, de grego para português. A tradução envolveu muita pesquisa em sites gregos e, principalmente, cretenses, além da ajuda de um amigo cretense que mora na Tessalônica, isto é, mais uma vez, através da internet.

Você desenvolveu na UFRJ uma esse de doutorado sobre Kazantzákis, que será proximamente publicada pela Cassará Editora, poderia nos falar, em linhas gerais, sobre os principais aspectos dessa sua pesquisa?

L.S.B. Não foi só a tese de doutorado, foram também a dissertação de mestrado e, agora, a pesquisa de pós-doutorado. Toda minha vida acadêmica foi dedicada ao estudo de sua obra.

Mas, especificamente em relação à tese de doutorado, o enfoque principal foi demonstrar que, ao contrário do que dizem, a epopéia não termina com Camões, Kazantzákis também escreveu uma epopeia à qual deu o nome de Odisseia. A estratégia usada foi um estudo comparativo entre a Odisseia homérica, a do Akritas, produzida durante o período bizantino, e a kazantzakiana, escrita na época moderna.

Infelizmente, o grego moderno é ainda pouco difundido no Brasil. Concretamente, o que seria importante fazer para difundi-lo? Para aqueles que têm desejo de aprender grego moderno, qual conselho lhes daria?

L.S.B.Concretamente, seria necessário que, em primeiro lugar, houvesse um interesse real das próprias autoridades gregas no Brasil na difusão de sua língua e de sua cultura. Explicando melhor, seria necessário que os consulados, ou mesmo a embaixada, entrasse em contato com as universidades sugerindo um curso de grego moderno como eletivo. Isso já seria um ótimo começo.

Quanto àqueles que desejam aprender o grego moderno, eu aconselharia a começarem seus estudos aqui no Brasil, com um professor brasileiro, pois, ele conhece bem onde estão as nossas dificuldades no aprendizado da língua e poderá ajudá-los. Depois disso, infelizmente, só estudando na Grécia.

Jornada Relatório ao Greco – Kazantzákis

A Cassará Editora e a Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel – UERJ convidam para a Jornada Relatório ao Greco – Kazantzákis

Cassará Relatório ao Greco Convite

 

Morre, em Olinda, aos 92 anos, Edson Nery da Fonseca (G1 – globo.com)

Leia a seguir matéria publicada no G1 (globo,com) sobre a morte de Edson Nery da Fonseca.Imagem

Morre, em Olinda, aos 92 anos, Edson Nery da Fonseca

Pernambucano foi vítima de complicações causadas por infecções.
Ele fundou cursos de biblioteconomia na UFPE, em 1950, e UnB, em 1965.

 O bibliotecário, professor e escritor pernambucano Edson Nery da Fonseca faleceu neste domingo (22), em sua casa, em Olinda, vítima de complicações causadas por infecções urinária e pulmonar. O escritor estava acamado havia muito tempo e recebia atendimento médico domiciliar. O quadro se agravou nos últimos dias.

A morte aconteceu por volta das 7h30 e o velório foi realizado na casa do escritor, na Rua de São Bento, no Sítio Histórico de Olinda, se estendendo durante toda a madrugada. Na segunda-feira (23), parentes, amigos e admiradores compareceram à missa de corpo presente, realizada no Mosteiro de São Bento, também em Olinda, às 9h.  O sepultamento aconteceu no Cemitério dos Ingleses, no Recife, logo em seguida. A família do escritor está enterrada no local.

Lúcido até o fim
No velório, amigos e parentes prestaram as últimas homenagens ao bibliotecário. A pedogoga Lucinha Maria, sobrinha de Edson, cuidou do tio nos últimos três anos. Ela contou que desde o domingo o quadro de saúde vinha se agravando, mas Edson Nery pediu para não ser encaminhado para fazer hemodiálise ou ser internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Até os seus últimos dias, meu tio estava lúcido, conversava, apesar da idade. Domingo, ele deixou de urinar, ficou fraco, e um médico veio até a casa. Mas ele disse que queria ficar em casa, não queria ser entubado”, contou. Edson Nery deixou um documento com Lucinha dando orientações sobre seu funeral, entre elas a ausência de flores, vestir a túnica do Mosteiro de São Bento e ser enterrado no túmulo da sua avó, no Cemitério dos Ingleses, no Centro do Recife.

“Meu tio era uma pessoa de opinião, criando até inimizades por conta disso. Sempre admirei ele por isso, pela inteligência, pela memória. Era um homem muito bom. A gente já estava esperando pelo falecimento, ele estava muito fraco nos últimos dias. Mas vai deixar muita saudade”, comentou Lucinha.

Edson Nery publicou cerca de 20 livros, alguns com a ajuda do historiador e pesquisador Clênio Sierra de Alcântara, que o acompanhou nos últimos anos. Ele recebeu da editora, na quarta-feira, a versão final de “A cidade e a história”, livro escrito em homenagem a Edson Nery da Fonseca. A obra não chegou a ser compartilhada com o bibliotecário. “Era muito bom conversar com ele, que tinha uma memória, sabia contar as histórias do passado. Era um grande homem”, disse.

Após o velório, corpo será levado para o Mosteiro de São Bento, também em Olinda, para missa de corpo presente; enterro será no Cemitério dos Ingleses, no Recife (Foto: Vitor Tavares / G1)

Professor universitário e especialista em Gilberto Freyre
Nascido no Recife em 1921, Edson Nery da Fonseca foi bibliotecário no governo municipal, nos anos 1940, sendo convidado, em 1950, pelo reitor da então Universidade do Recife (futura Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), professor Joaquim Amazonas, para fundar o curso de biblioteconomia.

Em 1965, inaugurou a mesma graduação na Universidade de Brasília (UnB), junto com Darcy Ribeiro. De 1980 a 1987, atuou como pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco . Em 1991, se aposentou da UnB, da qual era professor emérito. Em 2011, recebeu da UFPE o título de doutor honoris causa.

Considerado o maior especialista na obra do sociólogo Gilberto Freyre, Edson Nery da Fonseca organizou e publicou diversas obras sobre ele. Uma delas foi “O Grande Sedutor – Escritos sobre Gilberto Freyre de 1945 até hoje”, lançada durante a edição 2011 da Fliporto.

O livro reúne 135 textos de Edson Nery da Fonseca sobre Gilberto Freyre escritos entre 1945 e 2010. O autor sempre recusou o rótulo de curador de Freyre, deixando essa função para a Fundação dirigida pela filha do sociólogo. Depois que Gilberto Freyre morreu, Nery publicou quatro livros dele, um deles atendendo ao pedido do próprio autor: “Palavras repatriadas” reúne textos, conferências, escritos, proferidas em inglês e vertidas por diferentes tradutores para o português.

Fonte: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2014/06/morre-em-olinda-aos-92-anos-edson-nery-da-fonseca.html

UnB diz adeus a Edson Nery da Fonseca

Leia a seguir texto sobre o falecimento de Edson Nery da Fonseca, autor de “O Grande Sedutor” (Cassará, 2011), publicado na página eletrônica da Universidade de Brasília.

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UnB diz adeus a Edson Nery da Fonseca

Fundador da Biblioteca Central e do curso de Biblioteconomia da Universidade de Brasília foi vítima de complicações causadas por infecções

Ádlia Tavares – Da Secretaria de Comunicação da UnB

Morreu, na manhã de domingo (22), aos 92 anos, o bibliotecário, escritor, crítico literário, memorialista e professor emérito da Universidade de Brasília Edson Nery da Fonseca. Ele faleceu em decorrência de infecções pulmonar e urinária, na própria casa, em Olinda, onde recebia atendimento hospitalar. O corpo de Edson foi velado na segunda-feira (23), no Mosteiro de São Bento, também na cidade pernambucana. O sepultamento aconteceu em seguida, no Cemitério dos Ingleses, no Recife.

Edson Nery da Fonseca foi referência para a Biblioteconomia brasileira. O escritor pernambucano fundou os cursos de graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal de Pernambuco – o primeiro da região do país -, e na Universidade de Brasília. Também foi responsável pela implantação da Biblioteca Central da UnB e colaborou para a criação da Faculdade de Ciência da Informação (FCI), que integra os cursos de Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia.

“O professor participou do debate sobre a criação da FCI e defendeu a proposta da unidade [antiga faculdade de Biblioteconomia] na reunião do Consuni, no dia 30 de abril de 2010. Ele foi aplaudido de pé e a proposta foi aprovada”, conta Elmira Luiza Melo Soares Simeão, atual coordenadora da FCI.

Elmira ressalta as fortes ligações do bibliotecário com a UnB. “Ele sempre conversava conosco por telefone, para saber como estava o curso e a universidade. Ele tinha muita curiosidade pela rotina da universidade”, conta. Em resposta ao interesse de Edson Nery, Elmira enviava, com frequência, exemplares de livros e periódicos publicados na universidade. “Ele gostava muito da revista Darcy”, lembra.

LITERATURA – Nery ainda era especialista em literatura brasileira, reconhecido no Brasil e no exterior como o maior conhecedor da obra de Gilberto Freyre, autor de Casa-Grande e Senzala. O crítico literário também foi estudioso da poesia moderna de Manuel Bandeira, e escreveu dezenas de livros e artigos sobre Biblioteconomia e Literatura.
 

Trajetória de Edson Nery da Fonseca

1930-1941: ensino educacional do curso primário e secundário.

1942: com 21 anos, Fonseca ingressa na Faculdade de Direito do Recife interrompendo o curso em 1943 ao ser convocado para o Exército onde presta serviços até 1945. Neste período também exerce o jornalismo literário no Jornal do Comercio e no Diário de Pernambuco até 1946.

1946: aos 25 anos é nomeado, pela Prefeitura Municipal do Recife, à Diretoria de Documentação e Cultura (DDC) tendo o estímulo necessário para a matrícula no curso Fundamental de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, sendo diplomado no ano seguinte.

1948: retorna ao Recife onde, pela DDC, funda o 1° curso de Biblioteconomia do nordeste que dirige até 1951 quando é dispensado pela Universidade por ter escrito o artigo “Verdades incômodas”, publicado no Diário de Pernambuco, bem como dirigiu a reforma das Bibliotecas da Faculdade de Direito e da Escola de Engenharia.

1952-1953: reside em João Pessoa e sob os auspícios do Instituto Nacional do Livro ministra cursos intensivos de Biblioteconomia para bibliotecários do Estado da Paraíba, Pernambuco e Alagoas.

1954: transfere-se para o Rio de Janeiro onde organiza e dirige o Departamento de Bibliografia do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD); anteriormente a isso chefiou A Biblioteca Demonstrativa Castro Alves, no Rio de Janeiro, e bibliotecário do Departamento administrativo do serviço público – DASP.

1955: já em Brasília, ingressa por concurso público na carreira de bibliotecário da Câmara dos Deputados.

1956-1960: é eleito Presidente da Associação Brasileira de Bibliotecários, também organizando e dirigindo a Comissão de Documentação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

1962-1965: é convidado a integrar o corpo docente na nova Universidade de Brasília (UnB) como professor associado em regime de tempo parcial, para ministrar metodologia aos mestrandos na área de letras, Artes e Ciências Humanas, quando em 1965 torna-se professor titular, organizando e dirigindo os Cursos de Biblioteconomia.

1966: organiza e dirige na UnB a Faculdade de Biblioteconomia e Informação Científica.

1972: passa a dirigir a Faculdade de Estudos Sociais Aplicados da Universidade de Brasília, até 1978, e sua Biblioteca Central.

1976: contratado pelo UNESCO como consultor do projeto para criação de um sistema nacional de bibliotecas na Guiné-Bissau, e também consultor da Biblioteca do Congresso dos EUA.

1980-1987: requisitado para atuar na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj, Recife). Inicia as funções como 1° Superintendente do Instituto de Documentação. Em 82 é nomeado Coordenador de Assuntos Internacionais da Fundação, onde de 85 a 86 assume o cargo de Assessor da Presidência vindo a ser dispensado em 87. Exatamente em 1987 foi nomeado assessor do Presidente José Sarney.

1988: é designado pelo Presidente da República para compor a Comissão Especial responsável pela preservação dos documentos integrantes do acervo privado da Presidência onde trabalha até 1990.

1991: aos 70 anos, aposenta-se como professor da UnB.

1995: Foi condecorado com o título de Professor Emérito pela UnB.

Fonte: Faculdade de Ciência da Informação

 

Fonte: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=8676