Entrevista com Carolina Bernardes, autora do ensaio introdutório de “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis

No dia 6 de outubro, ocorrerá na Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel – UERJ, Rio de Janeiro, uma jornada de estudos consagrada ao livro “Relatório ao Greco” de Níkos Kazantzákis. Livro que teve um papel fundamental para Hilda Hilst. Na ocasião será lançado pela Cassará Editora a primeira tradução, feita diretamente do grego moderno, de “Relatório ao Greco” (Tradução: Lucilia Soares Brandão / 488p.). Leia a seguir a entrevista, publicada na página do Facebook do Instituto Hilda Hilst, com Carolina Bernardes, pesquisadora da obra de Kazantzákis, que assina o ensaio introdutório da nova edição de “Relatório ao Greco”.

Existe uma história da recepção de Kazantzakis no Brasil, no entanto, há muito por se fazer visto que a maioria de seus livros ainda não está traduzida para o português. Qual é a história dessa recepção e o que ainda precisa ser traduzido?

C.B. Há pouquíssimos anos, a obra de Kazantzakis chegava ao leitor brasileiro por traduções indiretas do grego (normalmente vindas do inglês), em edições descuidadas. Faltavam nos livros e no âmbito acadêmico textos críticos e estudos, sejam eles de mera apresentação ou de análise aprofundada, o que desfavorecia a difusão do escritor para um público maior. Temos, entretanto, José Paulo Paes como um bandeirante nos estudos de literatura grega moderna, que produziu ensaios, antologias e traduções de Kaváfis, Seféris e de Ascese Os Salvadores de Deus (Ática, 1997) de Kazantzakis. Lucília Soares Brandão também foi uma bandeirante ao estudar Kazantzákis na esfera acadêmica. Apesar das inúmeras dificuldades – o idioma pouco familiar, a escassez de traduções e de material de pesquisa, a distância geográfica e cultural – aos poucos, os estudos acadêmicos começaram a surgir e tem existido atualmente um grande interesse de alunos que se arriscam a escolher Kazantzakis como tema de estudo. A tendência das traduções é a mesma. Não só estão sendo traduzidas as antigas obras que foram vertidas do inglês, como também outras que eram inéditas ao leitor brasileiro. A obra de Kazantzakis é vasta, portanto, é cedo ainda para afirmar o que falta ser traduzido, como se pudéssemos contar nos dedos, mas quando a Odisseia tiver sua versão brasileira, teremos avançado para além das colunas de Hércules.

Como surgiu seu interesse por Kazantzákis?

C.B. Cheguei a Kazantzakis pela porta costumeira: Zorba. Um livro esquecido na estante de meu pai. Sabemos que Zorba vai além do fictício (um homem que realmente existiu), mas era mais do que isso: a narrativa é tão bem construída que aquele homem rude e dionisíaco passou a viver em minha casa. Mais tarde, trabalhando em uma livraria, encontrei Ascese esquecido no estoque por meros onze reais. Abria o livro, mas não conseguia ler, tamanho o encanto e medo que me despertava. Estudá-lo no mestrado foi um caminho natural, não havia outra escolha. As dificuldades foram enormes, principalmente no começo dos anos dois mil, em que o acesso ao material de pesquisadores estrangeiros não era uma prática tão corrente. A falta de bolsa de incentivo foi outro empecilho. Foi um período em que convivi apenas com meus próprios recursos de pesquisa. O doutorado foi um pouco diferente, pois tive a meu favor a bolsa FAPESP, podendo assim compor uma excelente biblioteca sobre Kazantzakis, que hoje se encontra na UNESP de São José do Rio Preto para consulta de qualquer leitor interessado. Como o objeto de pesquisa foi a Odisseia, não teria conseguido concluir a pesquisa se não fosse o apoio financeiro. Fui imensamente favorecida também pela amizade com Miguel Castillo Didier, professor chileno e tradutor da Odisseia para o espanhol. O que inicialmente atraiu meu interesse pela obra de Kazantzakis é a característica multidiscursiva de sua obra, ou seja, a mistura de áreas do saber (como a filosofia, a religião e a literatura), assim como de doutrinas e personagens de épocas distantes. Porém, quem lê Kazantzakis sabe que esse interesse ultrapassa o texto. Não só Zorba é um personagem com o qual se convive; Kazantzakis é o amigo para quem se apresenta o relatório de viagem e de quem se ouve a voz como conselho a cada confronto com o abismo.

“Relatório ao Greco” foi um livro essencial para Hilda Hilst. O que representou para a autora a leitura desse livro?

C.B. Os registros biográficos indicam que, em 1962, Hilda Hilst recebeu de presente “Relatório ao Greco” em francês e a leitura significou um divisor de águas em sua vida. É então que ela se muda para a chácara conhecida como Casa do Sol para dedicar-se à literatura em silêncio, distanciada do mundo, uma ação que teria sido estimulada pela obra de Kazantzakis (em muitas obras do autor o distanciamento do mundo é visto como necessário para o conhecimento de si e de Deus, a contemplação seria uma das etapas da ascese). É evidente que uma autora como Hilda deve ser lida e estudada com apuro acadêmico e não é possível falar aqui apressadamente de seu trabalho. Mas, em linhas gerais, a proximidade literária entre Hilda e Kazantzakis já tem sido apontada por estudiosos, pois o autor grego não só foi o estímulo para uma efetiva mudança de vida, mas também o companheiro de uma busca filosófica que se revela, como por exemplo, na apreensão da figura divina e na maneira como ambos representam Deus em suas obras.

Kazantzakis é um autor que pertence à Literatura Grega moderna, mas sua obra possui diversas referências à Grécia Antiga. A seu ver qual é o papel da Grécia Antiga na obra de Kazantzakis?

C.B. A relação com a Grécia Antiga não é específica de Kazantzakis, mas se mostra presente em muitos autores da Grécia moderna, como Kaváfis e Seféris. O passado glorioso perdura como sombra para esses poetas descendentes e isso é representado de maneiras diferentes na obra de cada um. Além disso, lançar pontes entre o passado e o presente é uma tendência modernista, com o intuito de constituir o novo e reavaliar a atualidade a partir do que ficou inscrito na história. O que Kazantzakis faz é uma reinscrição da Grécia antiga em algumas de suas obras, fundindo épocas distantes e inserindo valores modernos no ambiente clássico, ao mesmo tempo em que reaproveita valores antigos como plenamente atuais. Por meio do conceito de élan vital de Bergson (corrente filosófica básica para o entendimento da obra kazantzakiana), Kazantzakis aproxima as duas Grécias como se jamais pudessem se distanciar.

A sua pesquisa de doutorado resultou no livro “A Odisseia de Nikos Kazantzakis: epopeia moderna do heroísmo trágico”, publicado pela Cassará em 2012. Você poderia nos dizer, resumidamente, qual é a sua leitura da Odisseia de Kazantzákis?

C.B. Assim como a escolha de Ascese para análise no mestrado foi natural, concentrar-me na Odisseia no doutorado seguiu a mesma tendência, porque a viagem protagonizada pelo Odisseu kazantzakiano é a consumação concreta da viagem simbólica e abstrata que ocorre em Ascese. A Odisseia é uma obra de difícil leitura, tanto pela sua dimensão – 33 333 versos – quanto pela enormidade de temas e caminhos de análise que evoca. A leitura que realizei é apenas uma das possíveis e não se chega jamais satisfeito ao final do percurso crítico nesta obra, pois inúmeras possibilidades são deixadas de lado (obviamente, não é possível abarcar todas em uma tese). Escolhi investigar a figura de Odisseu como poeta criador a partir das ações já conhecidas do herói homérico, e desse modo, reavaliando o personagem clássico e a amplitude de sua significação na literatura moderna; como Kazantzakis se coloca na tradição da epopeia clássica para atualizá-la na modernidade, época em que o gênero foi considerado esgotado; as implicações filosóficas que orientam o percurso do herói. É uma obra oceânica que excede resumos bem delimitados, mas para aqueles que pensam em se aventurar na leitura: se propõe como continuação da obra de Homero, a partir dos últimos feitos de Odisseu em Ítaca, levando-o mais uma vez ao mar para uma navegação inteiramente nova, após abandonar a família e o ambiente homérico. Este Odisseu é o sedento por conhecimento e reconhece na marcha ininterrupta o único caminho para se viver na plenitude dionisíaca e para preparar o terreno ao homem futuro, aquele capaz de dar continuidade à ascensão. Nas palavras de Kazantzakis: a Odisseia é um rio que flui em direção ao futuro.

Carolina Bernardes é Mestre em Estudos Literários pela UNESP de Araraquara, com pesquisa sobre a obra Ascese Os Salvadores de Deus de N. Kazantzakis; Doutora em Letras pela UNESP de São José do Rio Preto, com tese sobre a Odisseia de Kazantzakis, publicada pela Cassará. Tem artigos publicados no Brasil, França, Portugal e Chile, e tem colaborado na difusão e leitura crítica da obra kazantzakiana. É escritora e professora no ensino superior.

Fonte: página Facebook Instituto Hilda Hilst, 22 de setembro de 2014: https://www.facebook.com/InstitutoHildaHilst

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