Entrevista com Isabela Fernandes

Isabela Fernades é professora de mitologia da PUC-Rio, foi discípula do renomado especialista do mundo Greco-romano Junito Brandão (1924-1995), é uma das organizadoras do livro “A Vida, a Morte e as Paixões no Mundo antigo: novas perspectivas”, que será lançado pela Cassará Editora, no próximo dia 17 de junho, a partir das 19 horas, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Leia a seguir a entrevista que Isabela Fernandes nos concedeu e na qual fala sobre a importância dos mitos e sobre o lançamento do novo livro:

I.F: Como iniciou o seu interesse em estudar a Antiguidade?

Eu sou interessada em Antiguidade desde pequena. Meus pais eram apaixonados pelo mundo antigo, e eles me transmitiram esta paixão. Eles eram professores que ministravam cursos relacionados à Antiguidade. Eu cresci ouvindo mitos e frases dos grandes pensadores gregos. Eu sempre fui fascinada pelos povos do passado, somente o passado me interessava, o presente nunca me interessou muito.

I.F: Qual é a importância de estudar os mitos?

Os mitos são narrativas poéticas e, enquanto tal, eles desvelam as grandes paixões, os valores e os ideais dos homens de uma determinada época; ao mesmo tempo os mitos  possuem a capacidade de expressar significados que transcendem as fronteiras culturais. Por isso os mitos podem articular o passado e o presente, eles abrem brechas no olhar enraizado no presente e permitem uma passagem secreta para a compreensão profunda do passado.

I.F: De que forma os mitos se relacionam com a história da humanidade?

Os mitos expressam o imaginário dos povos antigos, e, em minha opinião, só podemos compreender os povos antigos se compreendermos o seu imaginário. Os mitos, mais do que os eventos “reais”, revelam a alteridade das culturas.

I.F: O crítico Georges Steiner, no seu livro “A Morte da Tragédia”, nos diz que na Bíblia sempre existe uma razão para o sofrimento humano, ainda que os desígnios de Deus não sejam claros;  já na Tragédia Grega, de forma contrária, essa razão não é necessária, os atos dos deuses não precisam ser justificáveis. Você poderia falar um pouco sobre as diferenças entre essas duas visões de mundo? 

Posso falar que o sofrimento é absolutamente necessário na tragédia grega, somente o sofrimento  permite ao herói trágico experimentar um processo de purificação e de conhecimento. Orestes e Édipo se redimem através do sofrimento. “ Sofrer para compreender”, esta é uma das frases de Ésquilo na peça Oréstia. Pois na tragédia o sofrimento é parcialmente ancorado ― e eu digo “ancorado”, não exatamente “justificado”―, no plano misterioso dos desígnios divinos. Quanto aos desígnios divinos, eles nunca são claros, nem precisam ser justificados: em nenhuma religião, nem no cristianismo, nem na tragédia.

I.F: Quais são as contribuições de “A Vida, a morte e as paixões no mundo antigo: novas perspectivas” para os estudos da Antiguidade no Brasil?

Eu acredito que o livro possa trazer uma compreensão diferenciada da antiguidade  justamente porque os artigos focalizam a religião, os mitos, as tradições, o teatro, enfim, o imaginário dos antigos. Compreender os povos do passado é compreender como eles concebiam a vida, a morte e as paixões. No Brasil já existem muitas obras que se debruçam sobre a Antiguidade. Porém elas se dividem em dois tipos: ou elas estão muito presas aos mitos e aos símbolos, sem focar os processos culturais, ou elas estão muito presas aos processos culturais, sem focar os símbolos. E neste último caso as obras estão confinadas aos modelos da academia. Neste sentido acho que a principal contribuição dos artigos de nosso livro é trazer este enfoque diferenciado sobre o imaginário dos antigos sem esquecer os aspectos socioculturais, e, principalmente, sem ficar presos à árida retórica acadêmica.

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Entrevista com Flávia Schlee Eyler

No próximo dia  17 de junho, a partir das 19 h, a Cassará Editora lançará na Livraria da Travessa, do Shopping Leblon, o livro A vida, a morte e as paixões no mundo antigo: novas perspectivas. O livro é composto por textos de oito autores, a organização é de Flavia Schlee Eyler e Isabela Fernandes. Conversamos com Flávia Schlee Eyler, que é Coordenadora da Área de História Antiga e Medieval do Departamento de História da PUC-Rio, a respeito de algumas questões que são abordadas na obra, assim como sobre a situação atual dos estudos da Antiguidade no Brasil.

Como inciou o seu interesse em estudar a Antiguidade?

F.S.E: A Antiguidade sempre me atraiu, mas profissionalmente entrei em contato com ela quando ministrei um curso intitulado “História Econômica I” para o Departamento de Economia durante alguns anos.  O curso apontava outras soluções possíveis de sobrevivência e de partilha econômica que não as do modelo capitalista e isto realmente me fascinou na a Antiguidade e no mundo Medieval.

Como você vê o Estudo da Antiguidade no Brasil?  O que ainda        falta para o seu pleno desenvolvimento?

F.S.E: Como a história do Brasil não passou por nenhuma época Antiga como o mundo europeu, isso não quer dizer que não exista necessidades sobre seu estudo. Não podemos abandonar a influência greco-romana, germânica e islâmica na formação de nosso país. Afinal, fomos colonizados e marcados historicamente por toda uma tradição que, juntamente com outras influências, como a dos índios e dos africanos, compuseram perfis variados sobre nós. Acredito que um pleno desenvolvimento jamais poderá ocorrer em nenhum nível da compreensão. Por isso, aposto no reconhecimento da necessidade de um pensamento histórico que religue algumas questões que são comuns aos homens de modo independente de suas nacionalidades. A crise do Estado-nação no mundo atual pode ser uma ótima oportunidade para tais reflexões.

Na Antiguidade Clássica não podemos falar em um sujeito subjetivo, as pessoas se constituíam em relação ao seu grupo, guénos. Você poderia nos explicar essa afirmação? Quando percebemos os primeiros indícios de um sujeito subjetivo?

F.S.E: Um sujeito dotado de subjetividade é fruto de um longo processo histórico que começa a germinar com a confissão auricular no século XII medieval, mas só se solidifica entre os séculos XVIII e XIX, quando, de fato, tal consciência ganha autonomia e implica ações e escolhas particularizadas por uma linguagem reflexiva que traz a identificação do eu que se pronuncia. Apesar dos antigos usarem a linguagem, a relação com ela não era da ordem da reflexividade. Assim a identificação de um indivíduo não era dada ou pensada por si de modo reflexivo e sim de acordo com aquilo que era percebido pelos outros. Esses outros eram aqueles que compunham seu grupo, o guénos e depois aqueles que compunham a polis, no caso grego.

A visão de mundo dos homens da Antiguidade era muita diferente da nossa. No entanto, a área de estudos da Antiguidade, talvez, seja na História uma das que lida de mais perto com questões inerentes à condição humana, por exemplo: a morte, as paixões, a virtude, o vício e a relação dos homens e dos deuses etc. Em suma, a Antiguidade está distante ou próxima? Como lidar com essa tensão, ao mesmo tempo, de estranhamento e familiaridade?

F.S.E: Acredito que é exatamente essa profunda diferença o que possibilita a riqueza das questões. Junto com o sujeito moderno dotado de subjetividade surge também o conceito de Natureza. Já no mundo Antigo, o conceito mais próximo de Natureza era o de Physis, o movimento e a corrupção de todas as coisas. E isso faz toda a diferença e traz a riqueza que hoje estranhamos. Como o ser humano era parte integrante do kósmos, estava submetido à ordem da physis, juntamente com todos os outros seres vivos. Neste sentido, o homem era o ser mais precário, pois não tinha instintos suficientes que garantissem sua sobrevivência. Daí a necessidade de construírem um mundo capaz de protegê-los. Tal questão assume formas variadas de organização, mas todas elas contemplam, de saída, os mistérios da vida e da morte e, sobretudo, das paixões que são a marca humana por excelência.

Quais são as contribuições de “A Vida, a morte e as paixões no mundo antigo: novas perspectivas” para os estudos da Antiguidade no Brasil?

F.S.E: Certamente nosso trabalho permite uma reflexão através do estranhamento entre nosso mundo organizado por uma racionalidade, capaz de resolver os problemas da sobrevivência de nossa espécie, e, ao mesmo tempo, seu fracasso. Neste sentido, estudar os antigos seria não voltar ao passado, mas voltar ao contato com uma abertura do humano para a criação sempre renovada de soluções para nossa própria fragilidade constitutiva. Afinal, diante dos deuses imortais e dos animais mortais, só os humanos sabem de sua fragilidade diante da vida e é exatamente essa consciência que permite a diversidade criativa de nossas culturas.